Por Mikhail Favalessa

Uma lacuna deixada pelos veículos cuiabanos que falam sobre música são as resenhas sobre discos. Tem uma pá de, especialmente, blogs legais, mas as resenhas aparecem mais pros shows. Hoje eu começo a destilar algumas opiniões sobre os discos das bandas cuiabanas e fora do eixo que se encostam no hardcore e seus afins, ou nem tanto. A primeira a entrar na mira foi o Aoxin.
Desde 2006 os garotos, agora já não tão garotos, se aventuram em gravações. Antes de lançar um disco cheio, lançaram um EP em 2006 e um single em 2007, fazendo bom uso deles nas divulgações da banda, angariando um público considerável em Cuiabá. Depois disso, ainda em 2007, começaram a gravar “Entre Justos e Profanos”, com dez faixas e produção de Rodrigo Lopes.
Musicalmente o disco faz jus ao rótulo de screamo em sua segunda onda, pós 2002. O screamo-o-rama, termo que deu origem ao nome do gênero e que significa algo como “gritos sem parar”, é uma das fortes características do Aoxin no disco. Levy e Luis Paulo fazem as vozes melódicas, extremamente bem casadas, enquanto Maiko vai duro no throating, intercalando ambas em algumas partes, e cantando juntas em outras. Isso cria um caos em algumas partes, como no final de “Vida Oposta”. Empolgante.
As guitarras e o baixo também chamam bastante atenção. Duetos das freqüências médias não faltam por todo o disco, e criam linhas melódicas deveras bonitas. Tudo muito sincronizado. Já o baixo é um caso a parte, eu diria. Se quando eu reparava nas guitarras duetadas já vinha o A Wilhelm Scream na minha cabeça, quando parei pra analisar o baixo a relação pulou na minha frente. Em “Ela Grita” o começa-para-começa-para e os tappings são a cara de The Horse, música do AWS, e isso é um elogio. Difícil achar bons baixistas por aqui (sempre rola muito guitarrista fazendo as vezes de baixista, e a pesar de isso já ter gerado um Ebinho Cardoso da vida, é difícil dar muito certo). Ele ainda se soma a um bom pedal duplo do Igo, que por vezes parece fazer toda a música balançar num terremoto sonoro (“A fraqueza que eu desprezo” parece ser o melhor exemplo). Bem pesado.
E contrastando com todo esse peso, o Aoxin mostra que também bebe do pop. Reforçando a inclusão deles na segunda onda do screamo, violões aparecem várias vezes, guitarras clean dedilhadas também, talvez revelando o porquê de o som deles ter sido bem aceito por públicos que não são muito chegados a barulho.
As exceções aos elogios que possam ser feitos ao disco ficam por conta de uma certa imaturidade do grupo, e também nas timbragens. Deixa eu explicar. Sendo o primeiro disco cheio, ou seja, a primeira vez que eles compilam mais de 5 músicas no mesmo registro, acabaram deixando várias músicas muito parecidas entre si. Algo que deve mudar com o tempo, mas que atrapalhou dessa vez. Quanto às timbragens, meu gosto me diz que elas soaram simuladas, meio sem sal.
Nada que tenha tornado o disco ruim, e no geral ele é sim muito bom. Se fosse pra escolher uma música preferida “Não se apóie nos pilares” com certeza soaria unânime entre meus neurônios. Rápida, berrada, com um solo animal.
O disco tá todo disponível no Tramavirtual do Aoxin, só acessar aqui. (Tem até um usuário próprio do Aoxin pra fazer o download, se você não tiver cadastro).